Tuesday, June 19, 2007

Olhar


Como disse o personagem de Michael Caine em "Children of Men", a trajetória humana pode ser resumida a uma contínua luta do ‘acaso’ contra o ‘significado’.

A cada dia, cada um de nós se depara com o dilema de encarar a sua vida, e os eventos que acontecem no cotidiano, com o olhar de quem vê um significado, ou de quem vê mero acaso, reles acidente sem sentido. Trata-se, então, de saber qual espécie de ‘olhar’ seremos treinados a exercitar quando crianças: aquele que constrói significados, que atribui sentido às coisas, ou aquele que enxerga apenas o aleatório.

Claro que não se trata, no primeiro caso, de um olhar que ‘encontra’ o sentido¹ das coisas, mas sim de um olhar que cria, elabora, esse sentido. É, portanto, um exercício criativo, criador, que todos deveríamos aprender já na infância. Isso porque não estou dizendo que tudo aquilo que nos ocorre tem um sentido inerente (como se o fato de um vaso cair de uma janela em nossa cabeça pudesse ter algum objetivo que não o azar), mas que há na natureza humana essa capacidade de conferir significado às coisas. E é essa capacidade que determina a qualidade de uma vida, é essa capacidade que irá determinar se viveremos como zumbis ou não.

Infelizmente, na sociedade um tanto neurótica em que nascemos, e pelo modo como as famílias e as relações iniciais de todo jovem estão estruturadas, é muito provável que testemunhemos, nos primeiros momentos de nossa vida, um bocado de desamor, muita atribulação, perda e indiferença – às vezes até pelo despreparo de nossos pais.

Nesse ambiente, talvez nossa tendência inata seja deixar-nos levar por essa segunda espécie de olhar: aquele para qual tudo isso, não tendo qualquer sentido, será de uma injustiça absurda, e provocará uma dor estúpida, porque injustificada.

Creio que esse é um olhar muito cruel para qualquer criança. Então é natural que, desde o início, aprendamos a fugir dele. Não houve nenhum adulto consciente capaz de nos ensinar um olhar diverso - nem nossos pais, porque eles talvez estejam muito perdidos com suas dores, nos oferecendo, nos máximo, as ‘respostas prontas’ que foram treinados a repetir.

Forma-se então uma secreta, inconsciente desconfiança de que nada faz sentido, de que a vida é algo sem qualquer significado. E por isso mesmo todas as experiências desagradáveis (a perspectiva da solidão, a doença, a possibilidade da morte) parecem piores, e nos fazem querer desviar o olhar dessas questões - porque não é a dor e a dificuldade o que na verdade tememos, mas sim o fato da dor e dificuldade não terem sentido algum.

E assim passamos toda nossa vida: escapando de uma visão que, secretamente, sabemos ter o potencial de nos destruir, agregando àquelas experiências iniciais outras vivências igualmente dolorosas, mas sempre em fuga. E é dessa forma que aquilo que recusamos a enxergar acaba por delinear os contornos de nossa própria trajetória, através de nossas escolhas, de nossas reações inconscientes.

Aos poucos, nos tornamos peritos em fugir do buraco que se abriu em nós: construímos discursos, nos deixamos iludir e envaidecer pela falsa auto-imagem que criamos, inventamos justificativas, elaboramos as mais diversas e requintadas formas de desviar nossa atenção. E o mundo é pródigo em nos ofertar várias formas de fuga, ao ‘gosto do cliente’: o trabalho desenfreado, o consumismo, as paixões desencontradas, a busca cega por diversões padronizadas, o uso não ritualizado de substâncias entorpecentes, as ideologias políticas, as religiões, etc.

O resultado disso é que nunca estamos inteiros em nada, pois contaminamos todas as coisas que fazemos, e que poderíamos fazer de forma legítima se a situação fosse outra, com a marca de nossa fuga, de nossa covardia. Não estamos verdadeiramente presentes em nossas relações com os outros, pois estamos ocupados demais tentando convencer a todos, e principalmente a nós mesmos, que nada há de errado.

Seria necessário uma freada nesse caminhar cego. Seria necessário aprender e treinar aquele olhar que busca e constrói sentido. Seria necessário utilizar esse olhar então adquirido para perceber o significado existente naquilo que ocorreu em nosso passado. Só assim poderemos descobrir tudo o que ainda não fomos e poderemos ser. Apenas assim poderemos estar inteiros em tudo o que decidamos fazer, seja o que for. Só assim começaremos a nos relacionar com os outros, e não com suas sombras.

E, de um modo ou de outro, esse é o passo corajoso de todos os que decidem fazer alguma forma de terapia. Pois, antes mesmo de começar o processo terapêutico, o próprio fato de tomar essa decisão já é um modo de reconhecer a necessidade de parar de fugir de si mesmo.

Portanto, esse passo em si de nada vale se, junto com ele, não percebermos que o mais importante, o mais fundamental, é o compromisso assumido com nós mesmos de parar de fugir, de examinar com cuidado e atenção a que está oculto, de aprender novos olhares que até mesmo podem causar uma reviravolta em nossas vidas.

Trata-se de um processo curativo. E, sob esse aspecto, o terapeuta pode ser considerado uma espécie de médico (como alguém já me disse, um ‘médico da cabeça’), sendo a terapia uma espécie de tratamento: um médico com um tratamento para nos curar não de uma doença, mas de uma ‘visão doentia’ que, por mais que neguemos, existe dentro de nós, e através da qual desconstruímos nossa vida e tudo que nos ocorre. Porém, isso é só parte da verdade. E nos surpreenderemos com o que virá.

Porque, ao iniciarmos o caminho que reconstrói nossa visão do passado e de nossa vida, descobrimos que há uma espécie de ‘chamado’. Um chamado não de algum Deus ou força espiritual, mas um chamado de nós mesmos para nós mesmos. Aquilo que chama é o ser que poderíamos ter sido, se desde o início houvéssemos aprendido a exercitar o olhar que atribui significado ao mundo; se, desde o início, alguém nos houvesse ensinado a ver as perdas, decepções e indiferenças com o olhar que se dedica a construir uma vida, um sentido um senti. É aquilo que, a despeito de todas as dificuldades, permaneceu em estado de latência aguardando o momento de se manifestar.

Dessa forma, o que se inicia como um processo curativo logo se transforma em uma espécie de ‘gestação’, na qual damos nascimento a um novo modo de ser, viver e olhar que, no fundo, nada mais é do que nosso eu mais genuíno, que nada mais fará que expressar quem realmente somos da forma mais verdadeira possível. E o terapeuta, nessa perspectiva, não é um curador ou médico, mas um parteiro que dá seu auxílio a essa gestação: não é ele que gera, e de nada adianta simplesmente confiarmos em seu trabalho, por mais competente e dedicado que ele seja, pois o esforço desse ‘parto’ é todo nosso.

O que, ao final desse processo, nos tornamos? Não tenho idéia, principalmente porque esse é um processo de uma vida toda, com ou sem terapia. Então, não há um modelo final, um ponto de chegada. O aprendizado do olhar que dá significado à vida trabalhará continuamente em nós, dentro de nós e fora de nós, nos transformando e transformando tudo o que nos rodeia (nosso destino, nossas relações), num movimento de eterna descoberta. Não é algo que garanta a felicidade, não é algo que assegure algum tipo de sucesso: não se trata de fugir da dor e dos problemas, nem mesmo de assumir alguma daquelas um tanto infantis posturas 'hiper-otimistas' (no velho estilo 'pensamento positivo'). Trata-se, sim, de deixar de ser objeto do destino, dos acontecimentos, dos problemas e das dificuldades, para ser sujeito de nosso destino, de nossos problemas e dos desafios que jamais deixarão de existir.
Os cientistas, através da física quântica, descobriram que o modo pelo qual procuram perceber um fenômeno determina o próprio modo como esse fenômeno irá se manifestar. Da mesma maneira, ao deitarmos esse novo olhar sobre todas as coisas, todas elas reagem de um modo diferente. Onde antes havia uma vida de escombros e fragmentos sem sentidos, há agora uma riqueza de significados e possibilidades. Eu sinto isso de uma maneira segura, portanto posso ser uma testemunha desse fenômeno.

"Tão longe quanto podemos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão do mero existir". – Carl Gustav Jung, "Memórias, Sonhos e Reflexões".


Nota:
1. - Acho importante frisar a palavra ‘sentido’, pois ela é melhor que ‘significado’. ‘Sentido’, além de sugerir a idéia de ‘significado’, também traz a idéia de ‘sentimento’ (de algo que é ‘sentido’) e de caminho, orientação (como o sentido de uma rua). Assim, construir o sentido da nossa vida significa não só dar a ela um significado, mas também um sentimento e uma orientação dentro de um caminho que escolhemos.

7 comments:

deni said...

Que bacana isso!! Nunca tinha pensado o processo desse modo...muito bem colocado...tu escreves bem, heim?!

vivi said...

Eu compartilho essa visão de mundo, você sabe! fico feliz [e um bocadim orgulhosa, é verdade] de estarmos vivendo juntos essa aventura. Chuac!

vic said...

Ae, brigado pelos cumprimentos. Pena que 'escrever bem' não dá dinheiro, eheheheh

Muriel said...

Poxa, legal mesmo esse teu texto, Vitor! Ta aí um papo para nosso próximo encontro. Um abraço!

deni said...

Vic?? Para onde foi o seu alter-ego Hugh? Humm, imagino o que tenha acontecido...
É, infelizmente escrever bem não paga as contas...mas diverte, então tá bom...
Muriel, ouvi falar muito em vc...bem vindo ao blog!!!

P.S. Que fófis vcs são, vivics!!! Chuac para vcs tb!!

Karen said...

Rapaz, é isso mesmo, essa busca é muito curiosa, não se sabe de onde partimos e nem onde vamos parar, só sinto que é um processo o qual vai lentamente, muito lentamente proporcionando-nos um conforto em estarmos em companhia de nós mesmos. Confuso? Hehehehehe...

vic said...

Que legal Karen, é isso aí mesmo, confuso mas necessário. Deni, só dei um tempo no Hugh p não denunciar minha identidade secreta para terceiros. Depois ele volta.